
A SANTA REGRA NA VIDA DO OBLATO
(Nossa reunião de 16/08/1981) por Dom Estêvão Bettencourt OSB
Sabemos que a Regra de São Bento foi escrita no século VI, fazendo eco a fontes anteriores; está bem arraigada no contexto cultural dos primeiros séculos da Igreja[1]. Daí a pergunta: que sentido tem a Santa Regra para os nossos tempos e, essencialmente, para os oblatos de nossos dias? Com efeito, dificilmente pode a Santa Regra ser tomada ao pé da letra, pois prescreve não tomar banho, dormir com a roupa do dia, usar de disciplina corporal ou pancadas de castigo…
A resposta a tal pergunta há de partir da distinção entre letra e espírito. A Santa Regra tem sua letra que é expressão de um espírito ou de uma mentalidade; esse espírito pôde assumir expressões diversas através dos tempos ou de acordo com as sucessivas fases da cultura humana, sem se trair nem deteriorar. Importa, pois, não nos prendermos decisivamente a certas expressões da letra da Santa Regra, mas, antes, procurarmos sondar com muita clareza e profundidade o seu espírito.
O ESPÍRITO DA SANTA REGRA
São Bento mesmo nos diria que não intencionava seguir outra Regra senão o próprio Evangelho. Este, afinal, vem a ser a Regra das Regras, como deduzimos do Prólogo da Santa Regra: “guiados pelo Evangelho sigamos as pegadas daquele que nos chamou ao ser Reino” (v. 54) ou ainda: “A Escritura nos desperta dizendo-nos: ‘É hora de nos levantarmos do sono’ (Rm 13,11)” (v. 32). Aliás, o decreto do Concílio do Vaticano II sobre a Vida Religiosa nos lembra: “O seguimento de Cristo proposto no Evangelho, norma última da Vida Religiosa, seja para todos os institutos a regra suprema, (Perfectae Caritatis 2). Com outras palavras ainda: o Espírito Santo é o Mestre para o qual o Evangelho e qualquer Regra querem despertar os fiéis; ora São Bento respeita profundamente o Espírito ao escrever, por exemplo: “Cada qual recebe de Deus um dom particular, este de um modo, aquele de outro (1Cor 7,7); por isto é com algum escrúpulo que estabelecemos a medida para a alimentação, de outros” (c. 40, 1-2). Pensemos também no respeito com que São Bento considera a vida eremítica (c. 1, vv 3-5).
Notemos, outrossim, que os grandes fundadores de famílias religiosas se converteram decisivamente ao ouvirem palavras do Evangelho; Santo Antão (+356), por exemplo, e São Francisco de Assis (+1226) sentiram-se seriamente interpelados pela exortação de Cristo: “Se querer ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos pobres… Depois vem e segue-me” (Mt 19,21). Quanto a Santo Agostinho (+430), moveram-no os dizeres do Apóstolo em Rm 13, 11-14: “Chegou a hora de acordar… A noite avançou e o dia se aproxima. Portanto deixemos a obra das trevas e vistamos a armadura da luz. Como de dia, andemos decentemente, não em orgias e bebedeiras, nem em devassidão e libertinagens…”.
Ora podemos dizer que o espírito inspirador do Evangelho é o da doação generosa e radical do cristão a Cristo. Essa radicalidade do Evangelho aparece, por exemplo, no sermão da montanha (Mt 5-7), onde o Senhor nos diz que o cristão diante de Deus não pode reivindicar para si nem olho nem mão nem túnica nem a própria face… O Senhor pode pedir a seus discípulos que renuncie a qualquer dos seus direitos mais legítimos para não perder o Reino dos Céus. No episódio de Mt 19-10-12, Jesus nos lembra que um cristão pode ser chamado a renunciar à vida conjugal (caso esta tenha fracassado uma vez) para não ferir a Lei de Deus. Assim o cristão, mesmo vivendo no século e em família, é chamado por efeito do seu Batismo a uma disponibilidade total e radical nas mãos de Deus; se ele hoje tem algo de legitimamente seu, saiba que amanhã o Senhor lho poderá pedir sem que ele tenha o direito de se fechar em sua “posse legítima”. A radicalidade de atitudes interiores vem a ser a característica de quem busca coerentemente o Absoluto; este não admite méis-medidas.
Pois bem: a Santa Regra não pretende senão levar a viver a radicalidade do Evangelho em moldes concebidos por N. P. S. Bento dentro do contexto eclesial e cultural de sua época (Século VI). O próprio São Bento previu a possibilidade de se adaptarem as normas da Regra a novas e novas circunstâncias históricas: lembremos, por exemplo, o que o Santo Legislador dispõe a respeito dos salmos e da sua distribuição no Ofício Divino (Regra, c.18, v.23), no tocante ao tipo de roupa e hábito dos monges (Regra, c.55, v. 1-4), com respeito à medida cotidiana de vinho (Regra, c.40,8)… O grande princípio adotado por São Bento é que “se devem temperar todas as coisas de modo que os fortes ainda possam desejar mais e os fracos não se afastem temerosos ou acovardados (c.64,19). Ao Abade toca precisamente a árdua tarefa de tudo equilibrar de modo a poder atender às necessidades e aos temperamentos de uns e outros (c.2, 12.25.31).
Esta flexibilidade está no âmago da Santa Regra, embora São Bento proclame o valor da conformidade a um modelo objetivo de observância: “Em tudo sigam todos a Regra como mestra, nem dela se desvie alguém temerariamente” (3,7). Observa-se que São Bento procura não atrofiar a liberdade espiritual por uma legislação demasiado minuciosa; evita prever todas as possíveis contingências esforçando-se, antes, por educar as consciências dos monges e do Abade para que vejam, à luz de Deus, o que cada momento significa e exige. É este princípio de flexibilidade responsável que constitui o segredo da durabilidade da Santa Regra, permitindo-lhe atravessar quase quinze séculos de história muito diversificada sem perder a sua atualidade e o seu vigor. É de notar que nenhum outro legislador monástico posterior tomou o lugar de São Bento, como São Bento tomou o lugar dos anteriores.
Guardemos, pois, através dos moldes de civilização e da cultura contemporâneas, o espírito da Santa Regra, que é o do próprio Evangelho: o espírito de radicalidade ou de entrega incondicional ao Senhor – Esta entrega implica, antes do mais, conversão.
CONVERSÃO
Na Santa Regra não encontramos propriamente o termo Conversão, conversio, mas, sim, conversatio. Apesar das hesitações dos críticos e dos gramáticos, deve-se ler conversatio no c.58,17: “No oratório, diante de todos, prometa… a conversão de seus costumes”.
Que significa tal expressão?
Conversatio, em latim, vem a ser modo de vida. A conversatio morum que o candidato ao mosteiro (e todo oblato secular) promete, há de ser a própria vida monástica ou a aquisição de costumes monásticos, a procura das virtudes monásticas. O fim do Prólogo da Santa Regra ilustra bem o que seja a conversatio; com efeito, São Bento promete instituir uma escola onde se aprendam a extirpação dos vícios e o crescimento no amor. “Devemos constituir uma escola de serviço ao Senhor… para a emenda dos vícios e a conservação da caridade” (vv. 45-47). Com outras palavras, São Bento quer ajudar seus filhos a passar dos vícios ao amor; o Santo Legislador supõe os seus candidatos afastados do Senhor pela desobediência e dispostos a retornar a Ele pela obediência (prólogo v.2). Em conseqüência, a vida monástica ou a conversatio vem a ser conversio ou conversão. Assim se explica que na tradição monástica freqüentemente se tenha identificado conversatio com conversio.
A conversão é designada no Evangelho pelo termo grego metanoia. Esta implica, antes do mais, mudança de mente, reescalonamento dos valores, em conseqüência do que há mudança de comportamento exterior ou de vida. Quem se converte, procura aderir intimamente a Cristo, identificando-se com o Senhor em seu pensar e em seu agir.
Em última análise, a conversão significa assimilar, teórica e praticamente, o sermão das bem-aventuranças evangélicas (Mt 5,3-12), com tudo o que estas têm de aparentemente absurdo ou ilógico; consiste em descobrir valores onde a razão natural não os perceberia; isto equivale ainda a estar aberto para a irrupção do Reino ou estar disponível para os imprevisíveis de Deus. Este costuma intervir na vida dos seus e pedir-lhes o que lhes deu, como pediu a Abraão o filho que gratuitamente lhe havia concedido. Quem está convertido, quem mudou de mentalidade, quem vive a conversatio da Santa Regra…, esteja pronto a dizer SIM a tais apelos de Deus!
E, se tiver esta disponibilidade radical, viverá num quadro de vida correspondente, sinal de conversão interior.
Estêvão Bettencourt OSB
EM COMUNHÃO Nº 41 – SETEMBRO-OUTUBRO/ 1981
ABADIA “NULLIUS” DE NOSSA SENHORA DO MONSERRATE – Rio de Janeiro.
NOTAS:
[1] Tem-se discutido a questão do autor da Regra atribuída a São Bento. Este terá utilizado e adaptado o texto da Regra do Mestre, dando a este as características e a expressão próprias do Patriarca São Bento, de modo que, apesar das dependências do texto, se pode falar de Regra de São Bento.