Fidei Depositium


Conceituação: o que é a fé?
fevereiro 9, 2009, 2:44 pm
Filed under: Estudos, Fé e Razão, Filosofia, Igreja Católica, Religião, Teologia | Tags: ,

CONCEITUAÇÃO DA FÉ

Na linguagem vulgar, crer tem o sentido de um juízo “provável”, sendo uma simples opinião, como quando se diz: creio que ele não está em casa; creio que amanhã fará bom tempo.

Na linguagem comum, crer tem ainda a significação de confiança em verdades certas não suscetíveis de provas experimentais, como quando se diz: creio no Brasil, no primado da Justiça, etc.

Na linguagem religiosa, porém, vulgar, crer ou ter fé expressa um sentimento de conteúdo apenas efetivo, não intelectual.

Na doutrina católica, exata, verdadeiramente científica, vale dizer, teológica, a fé “é a virtude sobrenatural, pela qual, inspirados e auxiliados pela graça de Deus, cremos serem verdadeiras as realidades por Ele reveladas, não pela intrínseca verdade percebida com a luz natural da razão, mas por causa da autoridade do próprio Deus, que revela, o qual não pode enganar-se nem nos enganar” (Dz 1789 – DzS 3008). Mas, sob este aspecto, trataremos da fé mais adiante, no cap. sobre a teologia da fé.

A tese 9ª do livro de Congar sobre a Fé e a Teologia dá a mesma definição acima de fé, tomada dos Concílios de Trento e do Vaticano I, Dz 798 e 1789 – DzS 1526 e 3008: “A fé, começo da salvação do homem, é uma virtude sobrenatural pela qual, prevenidos e assistidos pela graça de Deus e recebendo pela pregação o que Ele revelou e prometeu, nós o cremos como verdadeiro, por causa da autoridade de Deus mesmo que o revela”[1].

Científica ou filosoficamente, para se ter a noção exata do termo, devemos partir da segunda operação intelectual, o “juízo”, que quando positivo, consiste na afirmação de duas idéias. Trata-se de uma adesão firme, consciente, que tem o nome (técnico em psicologia) de crença: “Credere est cum assencione cogitare” (S. TH. 2-2, q.2, a.1).

A crença, ato de crer ou de acreditar, de ter convicção ou de ter fé, consiste, fundamentalmente, nessa firme adesão intelectual a uma verdade, assim considerada, devido ao veraz testemunho alheio. Podemos, pois, definir, de modo rigorosamente científico:

A ou a crença é a firme adesão a uma verdade reconhecida como tal por causa de um testemunho fidedigno, seja humano (verdades históricas), seja divino (verdades religiosas).

Trata-se de um ato da inteligência e da vontade; da primeira, enquanto admissão de uma verdade; da segunda, por ser um ato livre. É certo que a fé ou crença não depende só da inteligência nem apenas só da vontade; mas de ambas, a títulos diversos. O papel principal e direto pertence à inteligência, que percebe a relação e lhe dá o seu assentimento. A vontade desempenha um papel indireto: porque é ela que mantém ou afasta a atenção, que aplica a inteligência no objeto e afasta as distrações, rejeita os preconceitos e as paixões. É freqüente o homem professar tais ou quais doutrinas por não ter querido examinar, com sua inteligência, as razões contrárias a essas doutrinas, ou, então, porque elas estão “de acordo” com os seus “sentimentos” e “interesses”. Esses “interesses” (sentimentos e paixões) podem exercer muita influência no pensamento, de tal modo que eles chegam a organizar o raciocínio, não pelas exigências lógicas do objeto, mas pelas conclusões escolhidas prévia e antecipadamente… Muitos homens têm demonstrado o que eles desejam. “Quem não age conforme pensa acaba pensando conforme age” dizia o Pe. Franca. Nesse caso, a inteligência abdica de seu primado sobre a vontade.

Em vista desse primado ou papel principal e direto da inteligência no ato de crer, estudemos a fé e a inteligência, mesmo porque a fé não é uma mera persuasão subjetiva, mas, conforme a definição acima do Vaticano I, a fé é,

  1. Um ato de inteligência, i. é, admissão de uma verdade; e
  2. Um ato livre, vale dizer, dependendo da vontade.

(MESQUITA, José Luiz de. “Por que Crer? A Fé e a Revelação. Editora Ave Maria)


[1] La Foi et la Théologie, p. 73.






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