O inferno – São João Bosco
O inferno é um lugar destinado pela justiça divina para punir com suplícios eternos os que morrem em pecado mortal. A primeira pena que os condenados sofrem no inferno é a pena dos sentidos, que são atormentados por um fogo que queima horrivelmente, sem nunca diminuir de intensidade. Fogo nos olhos, fogo na boca, fogo em todas as partes. Cada sentido sofre a própria pena; os olhos sofrem pela fumaça e pelas trevas e são aterrados pela vista dos demônios e dos outros condenados. Os ouvidos, dia e noite, só escutam contínuos uivos, prantos e blasfêmias. O olfato sofre enormemente pelo mau cheiro daquele enxofre e pez ardente que o sufoca. A boca é atormentada por sede devoradora e fome canina: Et famen patientur ut canes (”E padecerão fome como cães”). O mau rico no meio daqueles tormentos, ergueu o olhar para o Céu e pediu, como grande graça, uma pequena gota de água para mitigar a secura de sua língua e até essa gota de água lhe foi negada. Por isso, aqueles infelizes, requeimados de sede, devorados pelas chamas, atormentados pelo fogo, choram, gritam e se desesperam. Oh! Inferno, inferno! Como são infelizes os que caem nos teus abismos! — E tu que dizes, meu filho? Se agora não podes aguentar nem uma fagulha de fogo na mão sem gritar, como poderás aguentar-te então entre aquelas chamas por toda a eternidade?
Considera, além disso, meu filho, o remorso que experimenta a consciência dos condenados. Eles padecerão um inferno na memória, na inteligência, na vontade. Recordarão continuamente o motivo da sua perdição, isto é, por terem querido alimentar alguma paixão. Esta lembrança é o verme que nunca morre: Vermis eorum non móritur (”O verme deles não morre” – Mc 9,43). Recordarão o tempo que Deus lhes deu para evitar a perdição, os bons exemplos dos companheiros, os propósitos feitos e não cumpridos. Pensarão nos sermões ouvidos, nos avisos do confessor, nas boas inspirações para deixar o pecado; vendo que já não há remédio, lançarão gritos desesperados. A vontade nada terá do que deseja e, ao contrário, padecerá todos os males. A inteligência conhecerá finalmente o grande bem que perdeu. A alma separada do corpo, ao apresentar-se no tribunal divino, entrevê a beleza de Deus, conhece toda a sua bondade, chega a contemplar por um instante o esplendor do Paraíso, ouve talvez também os cantos harmoniosíssimos dos Anjos e dos Santos. Que dor verificar que perdeu tudo isso para sempre! Quem poderá resistir a tais tormentos?
Meu filho, tu que agora não te importas de perder o teu Deus e o Paraíso, conhecerás a tua cegueira quando vires tantos companheiros teus, mais ignorantes e mais pobres do que tu, triunfarem e gozarem no Reino dos Céus, ao passo que tu serás arrojado para longe daquela pátria feliz, do gozo do mesmo Deus, da companhia da Santíssima Virgem e dos Santos. Eia, pois, arrepende-te e faze penitência, não esperes para quando não houver mais tempo, entrega-te a Deus. Quem sabe se não é este o último chamado e se não correspondes, quem sabe se Deus não te abandona e não te deixa cair naqueles eternos suplícios! Oh! Meu Jesus, livrai-me do inferno: A poenis inferni, líbera me, Dómine! (Das penas do inferno, livrai-me Senhor!)
Considera, meu filho, que se fores para o inferno, nunca mais dele sairás.. Lá se sofrem todas as penas e todas eternamente. Passarão cem anos desde que caíste no inferno, passarão mil e o inferno estará ainda em seu começo; passarão cem mil, cem milhões, passarão mil milhões de séculos e o inferno terá apenas iniciado. Se um anjo levasse aos condenados a notícia que Deus os libertaria do inferno depois de passados tantos milhões de séculos quantas são as gotas de água do mar, as folhas das árvores e os grãos de areia da terra, esta notícia lhes causaria a maior satisfação. É verdade, diriam, que devem passar ainda tantos séculos, mas um dia há de acabar. Pelo contrário, passarão todos esses séculos e todos os tempos que se possam imaginar e o inferno estará sempre no princípio. Todos os condenados fariam de boa vontade com Deus o seguinte pacto: “Senhor, aumentai quanto entenderes este meu suplício; deixai-me nestes tormentos por quanto tempo quiserdes, contanto que me deis a esperança de que um dia hão de acabar”. Mas nada: esta esperança, este termo nunca chegará.
Se ao menos o pobre condenado pudesse enganar-se a si mesmo e iludir-se dizendo: Quem sabe, um dia talvez terá Deus piedade de mim e me arrancará deste abismo! Mas não, nem isto: verá sempre escrita diante de si a sentença de sua eternidade infeliz. Pois então, irá ele dizendo, todas estas penas, este fogo, estes gritos nunca mais acabarão para mim? Não, lhe será respondido, não, jamais. E durarão sempre? Sempre, por toda a eternidade. Sempre, verá escrito naquelas chamas que queimam; sempre, na ponta das espadas que os transpassam; sempre, naqueles demônios que o atormentam; sempre, naquelas portas eternamente fechadas para ele. Oh! Eternidade! Oh! Abismo sem fundo! Oh! Mar sem praias! Oh! Caverna sem saída! Quem não temerá ao pensar em ti? Maldito pecado! Que tremendos suplícios preparas para quem te comete! Ah! Nunca mais, nunca mais pecarei durante a minha vida.
Mas o que deve encher de pavor é pensar que aquela horrível fornalha está sempre aberta debaixo de teus pés e que é suficiente um só pecado mortal para lá te fazer cair. Compreendes bem, meu filho, o que estás lendo? Uma pena eterna por um só pecado mortal que cometes com tanta facilidade.
Uma blasfêmia, uma profanação dos dias santos, um furto, um ódio, uma palavra, um ato, um pensamento obsceno para seres condenado às penas do inferno. Oh! Meu filho escuta, pois, o meu conselho: Se a consciência te acusa de algum pecado, vai depressa confessar-te para começar uma vida boa.. Põe em prática todos os meios que te indicar o confessor. Se for necessário, faze uma confissão geral. Promete que hás de fugir das ocasiões perigosas, dos maus companheiros e, se Deus te indicasse até que deves deixar o mundo (e ingressar na vida religiosa), segue logo a sua voz.
Tudo que fizer para evitar uma eternidade de tormentos, é pouco, é nada: Nulla nímia secúritas, ubi periclitatur aetérnitas (São Bernardo: ). Oh! Quantos na flor da idade abandonaram o mundo, a pátria, os parentes, e foram viver isolados nas cavernas, nos desertos, alimentando- se somente de pão e água, e até às vezes só de raízes, e tudo isto para evitar o inferno? E tu, que fazes, depois de tantas vezes que mereceste o inferno com o pecado? Que fazes? Lança-te aos pés do teu Deus e dize-lhe: “Senhor, estou pronto a fazer o que vós quiserdes; nunca mais hei de pecar em minha vida; já por demais vos tenho ofendido; mandai-me todos os sofrimentos que quiserdes durante esta vida, contanto que eu possa salvar a minha alma”.








